Pierrot

       A bola balançava de um lado para o outro, quicava e rolava pelo paralelepípedo. Foi necessário muito ensaio para conseguir me equilibrar nela. Eu me sentia um astronauta, olhando o mundo de cima, sem tocar os pés no chão, em algo redondo como a Lua.

       Meu trabalho, entretanto, não era o de me equilibrar. Eu não era um astronauta. Não estava flutuando. Tinha que ficar equilibrado por tempo suficiente até chegar a hora de cair no chão. Essa era minha função. Não há graça no equilíbrio. A queda, sim, que faz as pessoas rirem.

       Ao contrário do que muitos pensam, eu não me importava com nada daquilo. Não com os xingamentos, com as coisas que jogavam em mim, em me machucar a cada apresentação. Isso fazia as pessoas rirem. E era para isso que eu vivia. Passava cada hora, minuto e segundo com uma única preocupação em mente: arrancar sorrisos do povo. Se meu público demonstrasse agrado pela minha apresentação, então nada mais importava.

       - Acerte o palhaço! Acerte o palhaço! – eles gritavam.

       Não demorou muito até que uma pedra afiada fosse de encontro à minha cabeça e rasgasse levemente minha pele, fazendo algumas gotas de sangue escorrerem pela máscara. Deitado no chão, sem me levantar, eu conseguia ouvir as risadas e palmas da plateia.

       Eu vivo para risadas. Descobri isso desde que tinha oito anos, quando fiz minha primeira apresentação.

       Havia encontrado uma máscara abandonada na feira da cidade. Ela era branca e tinha um grande sorriso estampado, buraquinhos no lugar dos olhos e um grande círculo vermelho no nariz. Na época eu só havia ido ao circo uma vez, mas consegui reconhecer que era aquilo que os palhaços usavam. Se eu a usasse, faria as pessoas rirem também? Era essa minha dúvida. Saí pelas ruas a procura de alguém que pudesse ser minha plateia.

       Não demorei muito para encontrá-la. Minha primeira plateia. A primeira pessoa que fiz rir.

       Ela estava agachada atrás de uma das barracas da feira, abraçando os joelhos, com a cabeça baixa. Suaves cachos loiros caíam sobre seu vestido branco sujo de terra. Ao me aproximar, ouvi o som de seu choro baixinho.

       Me ajoelhei e toquei seu ombro de leve. Ela rapidamente levantou a cabeça e seu corpinho pequenino se retorceu.

       - Me deixe em paz.

       Não respondi. Senti meu coração quase se partindo ao me deparar com aqueles belos olhos azuis encharcados. Quem teria coragem de fazer chorar alguém tão frágil, com um rosto tão angelical?

       Me afastei um pouco, pensando no que fazer. Olhei para os lados e encontrei uma caixa de madeira vazia, que um dos feirantes havia jogado fora. Peguei-a e coloquei-a de cabeça para baixo em frente à menininha.

       - O que está fazendo? – Ela perguntou, limpando as lágrimas.

       Subi na caixa e, sem pensar duas vezes, comecei a dançar. Bati palmas, rodopiei e fiz os movimentos mais loucos possíveis. Espiei com o canto do olho sua reação. Ela não chorava mais, apenas me encarava, surpresa.

       Preciso de um grande final.

       Pensado isso, fingi escorregar e me joguei para trás, simulando um acidente. Alguns segundos depois, deitado de costas, ouvi o riso mais lindo do mundo.

       - Você é engraçado – ela disse, mostrando os dentes. – Obrigada.

       Fechei os olhos para fazer parar a tontura que a pancada me causou. Me pus de pé com calma e subi na bola outra vez. Estava mais difícil de me equilibrar, mas o show tinha que continuar. As risadas estavam diminuindo, era uma questão de tempo até que eu tivesse que cair no chão outra vez.

       - Acerte o palhaço !

       - Não acerte o palhaço !

       Não esperava por aquilo. Uma das crianças gritou do fundo de seus pulmões, arrancando a pedra da mão de uma delas. No entanto, como a outra era mais forte, empurrou o menino e acertou-me novamente na cabeça. Caí para trás, e as risadas voltaram com tudo.

       Com o show terminado, a plateia se dispersou, voltando a seus afazeres. Enquanto me levantava, vi o pequenino abraçado à mãe a alguns passos de mim, com o rosto cheio de lágrimas.

       - Ei – saltitei até seu encontro, e quando ele olhou para mim, dei uma pirueta. – Está tudo bem – Puxei da minha calça bufante um chapéu colorido e cheio de penas e coloquei-o na cabeça, cobrindo a marca das pancadas. – Está tudo bem.

       Está tudo bem, eu sempre repetia para mim mesmo depois de todas as apresentações. Aquela frase me acalmava, era como um incentivo para sempre continuar a fazer palhaçadas, e não parar até fazer rir o último espectador.

       O menino sorriu. Senti como se meu trabalho estivesse completo.

       Me despedi do pequeno e fui tomar meu rumo de volta ao circo. Me virei e vi que um membro da plateia ainda estava lá, me encarando. Não era qualquer pessoa, eu a reconheci. Os cabelos loiros, os olhos azuis, a expressão tristonha.

       Era ela.

       Não precisei tomar uma ação, pois ela já estava caminhando até mim com um lenço bordado na mão. Segurou suavemente meu rosto, tirou o chapéu e secou o sangue da minha testa.

       Ela se lembrava de mim? Impossível. As memórias que eu causava sempre eram momentâneas, pois o riso não dura para sempre. A tristeza e a seriedade sempre encontram um jeito de tomarem conta dos seres humanos.

       - Nunca pensei que o veria outra vez. Você não mudou.

       Meu coração palpitou. Não conseguia acreditar que ela ainda se lembrava. O que fiz foi tão simples, tão banal, e mesmo sem nunca lhe dirigir uma palavra, ela me reconheceu ?

       - Por que você mente ? – ela perguntou

       Estranhei a pergunta. Já haviam me chamado de incontáveis nomes, mas jamais de mentiroso.

       - Eu não menti – respondi, depois de pensar um pouco. O sorriso intacto estampado na máscara.

       - Sim, mentiu – seus olhos cor-de-água me encaravam receosos – Você não está bem, está sangrando.

       - Estou sangrando e estou bem – coloquei o chapéu novamente.

       - Você é sempre assim? Sempre se machuca, mas diz que não se importa?

       - Eu não me importo.

       Ela suspirou e guardou o lenço.

       - Soube que seu circo irá se apresentar daqui a alguns dias.

       - Sim. Espero vê-la na plateia.

       Ela sorriu, porém tristemente. Virou-se, dando a entender que precisava ir embora.

       - Tente não mentir novamente, por favor – disse, depois partiu.

       Fiquei quieto e imóvel por alguns segundos. Abri a boca para responder-lhe, mas nenhum som saiu dela. Queria dizer a ela que não mentia, que realmente estava tudo bem. Por que não conseguia?

       Novamente, eu era um astronauta. Contudo, meu trabalho agora não era me equilibrar na Lua, agora precisava atravessar um caminho fino e bambo para chegar até meu destino. Não podia girar, tinha que permanecer em linha reta segurando nada mais do que um bastão.

       Depois de um longo trajeto de escadas, conseguia ver a plateia inteira de cima, mesmo que todos aparentassem estar do tamanho de formigas. Não consegui vê-la de lá, e fiquei me perguntando se minha resposta a magoara e ela resolveu não assistir ao espetáculo.

       Não podia pensar naquilo no momento. A única coisa que eu devia me concentrar era meu monociclo, e em andar perfeitamente em linha reta.

       Um frio percorreu meu estômago ao subir no monociclo. Aquilo era estranho, pois nunca me senti assim em nenhuma apresentação. Minha preocupação sempre foi a plateia, o que eu deveria sentir não tinha importância.

       Então por que estava tão fixado comigo mesmo no momento?

       Minhas costas suaram quando o monociclo tocou a corda. Um turbilhão de lembranças surgiu em minha mente. Todos os momentos em que caí, em que riram de mim, todas as humilhações, todas as risadas, os choros... e como sempre após tudo isso eu dizia para os outros e para mim : Está tudo bem.

       Tente não mentir novamente, por favor.

       A voz dela soou em meus ouvidos como se ela estivesse ao meu lado. Voltei a pensar em como não consegui lhe dar nenhuma resposta. E naquele momento percebi que ela não quis dizer que eu estava mentindo para o menino, nem para a plateia, nem para ela.

       Estava mentindo para mim mesmo.

       Cheguei ao meio da corda quando aconteceu. Uma lágrima involuntariamente escorreu sobre minha bochecha, por dentro da máscara. Depois dela, várias outras se formaram. Foram tantas ao mesmo tempo, por causa de tantos anos dizendo “Está tudo bem”, sempre escondido por trás de um sorriso.

       Um sorriso falso.

       Infelizmente, aquele foi o pior momento para descobrir quem eu realmente era. As lágrimas embaçaram meus olhos, que não estavam acostumados a chorar, e não consegui enxergar mais um palmo à minha frente.

       Agora estava no ar. Não como um astronauta flutuando, mas em queda livre. O ar escapou de meus pulmões por um instante quando minhas costas atingiram o chão.

Meus olhos estavam fechados. A máscara se partira por causa da queda, e agora estava a metros de distância de mim. Nunca me senti tão exposto em toda a vida. Minha cabeça pesava e meu corpo parecia estar em chamas, mas tudo isso pareceu se amenizar quando abri os olhos e me deparei com aquele rosto que nunca me esqueceu.

       Senti o gosto salgado das lágrimas dela que se misturavam com as minhas, e lembrei-me do dia em que nos conhecemos. Tão pequenina, tão linda, porém tão triste.

       - Eu sabia que por trás da máscara você escondia isso – ela limpou com delicadeza minhas lágrimas.

       Lutei ao máximo para me manter acordado e conseguir falar com ela.

       - Desculpe... Por mentir.

       Ela acariciou meu rosto. Meu rosto verdadeiro, choroso, desesperado. Nunca percebi que passara a vida escondendo essa face das pessoas, eu achava que se continuasse fazendo os outros rirem, seria feliz para sempre. Menti para mim mesmo tantas vezes que acabei acreditando em minha própria fantasia. Acabou que me tornei a pessoa mais infeliz no final.

       Apesar disso, não conseguia dizer o que estava sentindo no momento. Meu coração estava esmigalhado depois de perceber tudo aquilo, mas um calor cresceu em meu peito ao ouvir a voz dela.

       - Você não precisa sorrir o tempo todo – ela disse – Sempre que se sentir triste, chore. Sempre que estiver chateado, machucado, sozinho... – seu beiço tremeu, e meu rosto se encharcou novamente com nossos choros mesclados. – Eu estou aqui. Não esconda o que sente.

       Estiquei o braço com dificuldade, pois o sangue que escorria de minha cabeça estava deixando meu corpo inteiro fraco, e toquei sua mão. Pela primeira vez ela conseguia olhar em meus olhos.

       - Por que...naquele dia...você chorava?

       Ela respirou fundo, depois respondeu :

       - Estava sozinha. Uns garotos começaram a falar que ninguém se importava comigo e que eu ficaria assim para sempre. E eu acreditei naquilo, de verdade. Mas... – ela fez uma pausa – Parei de acreditar no momento em que você subiu naquela caixa.

       E ela sorriu. Um sorriso sincero, meigo, saudoso, feliz. Exatamente como de quando a conheci. Agora sentia que minha vida estava completa. Eu precisava ver aquele sorriso novamente antes de partir.

       - Obrigada... por me salvar – ela falou.

       Sorri para ela. Aquela era a segunda vez em que sorria de verdade, por realmente me sentir feliz. Não porque estava agradando ninguém, mas porque ela foi a única pessoa que se importou comigo também. Nós éramos iguais. Eu era tão frágil quanto aquela garotinha de anos atrás, encolhida, sozinha, mas que conseguiu sorrir no final.

       - Você quem me salvou.

       Foi a última coisa que eu disse, e nunca fui tão verdadeiro em toda a minha vida.

© 2017 por Giulia Paim. Orgulhosamente criado com Wix.com.

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